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A nova psiquiatria: aumento da demanda por saúde mental exige profissionais mais capacitados e trabalho multidisciplinar

Profissional de psiquiatria deixou de atuar sozinho e hoje trabalha em conjunto com psicólogos, enfermeiros e terapeutas ocupacionais

               

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Nova psiquiatria exige capacitação e trabalho multidisciplinar

Com o aumento de casos de transtornos mentais  no mundo e no Brasil – dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 86% dos brasileiros sofrem com condições como ansiedade e depressão –, cresceu também a procura por especialistas para lidar com esses pacientes. Em conjunto com essa demanda veio também a exigência por profissionais ainda mais capacitados e com foco no trabalho multidisciplinar, o que tem configurado um novo perfil da psiquiatria.

De acordo com Marcelo Feijó de Mello, psiquiatra e professor da Faculdade Israelita de Ciências da Saúde Albert Einstein, “o estigma que envolve a psiquiatria diminuiu muito. Existe um trabalho de disseminação de informações sendo feito há bastante tempo e na pandemia isso ficou evidente. Hoje, o preconceito com a procura por esse tipo de especialista está bem menor e já se tem a noção de que a saúde mental é uma parte da saúde como um todo. Os próprios psiquiatras têm sido mais reconhecidos e não trabalham mais sozinhos, como antes. É uma nova era, certamente, para a especialidade”.

Essa transformação chega em um momento em que o cenário é devastador. “No Hospital Mboi Mirim, na zona sul da São Paulo, que é administrado pelo Einstein, temos visto um crescimento grande de casos de ansiedade e depressão e de uso de novas drogas, por exemplo, e em todas as classes sociais, que culmina também em mais transtornos mentais. A área de psiquiatria passou a ser de muito interesse para o Ministério da Saúde exatamente porque tem muita demanda e poucos profissionais”.

Para se ter ideia, de acordo com o Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (Datasus), o total de mortes no país por lesões autoprovocadas dobrou nos últimos 20 anos – passando de 7 mil para 14 mil. E o número de psiquiatras não chega nem a esse total: são 13.888 especialistas, segundo o último estudo da Demografia Médica no Brasil, feito pela Associação Médica Brasileira (AMB).

Residência em psiquiatria

Não à toa, as residências em psiquiatria são, hoje, umas das mais competitivas do setor e o profissional que escolhe essa especialidade precisa se preparar para um cenário na saúde mais desafiador. Marcelo Feijó de Mello ressalta que a especialidade sempre contou com poucas vagas e muita procura, mas que a tendência é que o interesse por essa área aumente cada vez mais.

No começo do ano, o Ensino Einstein, que já conta com residência em especialidades como cardiologia, oncologia, ginecologia e mais, montou sua primeira turma de residentes nessa especialidade – um projeto que vinha sendo construído há três anos. E assim que foi aprovada a modalidade, ainda sem a quantidade de vagas disponibilizada – que hoje são apenas quatro –, a instituição já contava com mais de 85 candidaturas.

“Nem todo mundo sabe ou pensa nisso, mas o mais interessante sobre a residência em psiquiatria é que os médicos que fazem a especialização têm, obrigatoriamente, que ser muito bons profissionais. Eles precisam ter uma boa formação e ser muito capacitados apenas para passar nas vagas de residência. Então estamos sempre falando de profissionais de excelência”, aponta o psiquiatra.

Para seguir esse padrão de qualidade, o Einstein montou um currículo que foi além dos requisitos mínimos do Ministério da Educação (MEC), que inclui a prática clínica em diferentes cenários sempre com supervisão. Segundo Feijó, a instituição fez um minucioso levantamento com serviços de psiquiatria, incluindo os próprios, para preparar os profissionais da melhor forma possível para que possam atuar nas mais diferentes áreas de demanda:

“Nós temos um diferencial que é a nossa conexão com o Sistema Único de Saúde (SUS). O Einstein administra Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Unidades Básicas de Saúde (UBS), Núcleos de Apoio à Saúde da Família (NASF), residências terapêuticas, hospitais municipais e hospitais privados. São vivências diferentes, às vezes em locais de grande movimento, com casos complicados e em regiões de vulnerabilidade social. E em todos esses locais há um grande aprendizado”.

Os três anos de programa de residência têm também como foco o trabalho multidisciplinar, seja por meio de contato com outras especialidades nas emergências dos hospitais, ou no trabalho com as equipes de saúde mental de centros de atendimento em saúde primária e na rede de atenção psicossocial (RAPS).

“Dentro de um hospital geral, os psiquiatras precisam navegar entre as especialidades para ajudar a criar um plano de tratamento. E nas UBS ou CAPS, eles não trabalham sozinhos, mas em sintonia com psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros e terapeutas ocupacionais, que discutem os casos sempre em equipe. Essa é uma característica importante na residência, porque os psiquiatras não trabalham mais isolados em seus consultórios, essa época ficou para trás. A nova cara da profissão é essa”.

O futuro dos tratamentos em psiquiatria

Assim como a demanda dos pacientes, os tratamentos em psiquiatria também mudaram nos últimos 20 anos, de acordo com Marcelo Feijó de Mello. Além do desenvolvimento de novas medicações, de efeitos mais rápidos e com menos reações adversas, existem, hoje, psicoterapias mais pontuais para cuidar de quadros específicos.

“Os anos 1990 foram considerados a década do cérebro. Muitas novas pesquisas surgiram, tendo como resultado intervenções específicas, como neuromodulações, estimulações eletromagnéticas e, mais recentemente, o uso – ainda experimental – de substâncias psicodélicas para casos como o transtorno de estresse pós-traumático (TSPT), sem contar o canabidiol (CDB) e a cetamina, que têm tido bons resultados. Se for comparar com o que temos hoje, a psiquiatria é um campo completamente diferente do que eu conheci na minha formação, por exemplo. E nossos residentes vão estar aptos a participar desse mercado atual de trabalho”.

E, para acompanhar essas evoluções e contribuir para avanços ainda mais significativos na área, também as pesquisas devem fazer parte dessa formação. “Nós incentivamos os residentes a se envolver nessa área também. Dentro do Einstein, temos um aparato de nível internacional, no ​​Instituto do Cérebro (InCe). Ali, o médico pode fazer a pesquisa que quiser, são muitas as possibilidades e é uma oportunidade única, por isso estamos reforçando a parte de pesquisas também, tanto para esses quatro atuais residentes, quanto para os que devem vir – e quem sabe em um número maior – a partir dos próximos anos”.

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