Home Colunista Equidade em saúde: os abismos e as pontes

Equidade em saúde: os abismos e as pontes

É global o desafio da equidade em saúde, por isso profissionais e organizações precisam atuar para melhorar a questão e o acesso

               
2549

Costuma-se dizer que os números não mentem, e bastam alguns deles para constatar a gigantesca distância que nos separa da equidade em saúde, uma das cinco metas estabelecidas pelo Institute for Healthcare Improvement (IHI) e política de saúde adotada pelo Einstein, que tem como missão melhorar a saúde e a assistência a ela em todo o mundo. Podemos entender equidade como direito de todos à assistência à saúde no tempo adequado e à melhor qualidade de vida, independentemente da condição socioeconômica, origem, raça, gênero ou localização geográfica.

O que aconteceu na pandemia é um bom exemplo do conjunto de fatos que ocorreram na direção oposta: as desigualdades entre regiões no mundo e dentro dos próprios países. Logo na primeira onda, em 2020, já era possível notar como a população negra foi desproporcionalmente afetada. Por exemplo, nos Estados Unidos, no estado de Illinois, onde apenas 15% da população é negra, 35% dos casos e 40% das mortes por covid-19 eram de pacientes negros. No Michigan, onde 14% da população é negra, um terço dos casos e 40% das mortes eram de pacientes negros.

Por que a disparidade? São várias as explicações: condições sociais que dificultam o acesso a atendimento de saúde; muitos negros em profissões que não permitiam ficar em casa (motoristas de ônibus, funcionários de supermercados etc.), obrigando-os a usar transporte coletivo e ter contato com outras pessoas; altas taxas na população negra de obesidade, diabetes, hipertensão e asma, fatores de risco para desenvolver as formas mais graves da covid-19.

Aqui no Brasil também não faltam incongruências e o colapso da assistência em Manaus é um exemplo, com a falta de profissionais e recursos de toda sorte; em outros lugares, ir para a UTI e ser intubado era praticamente uma sentença de morte.

Mesmo onde havia equidade nos cuidados oferecidos a pacientes graves, iniquidades precedentes elevavam as taxas de óbito. O Hospital Municipal M’Boi Mirim – Dr. Moysés Deutsch, gerido pelo Einstein, contou com os mesmos equipamentos, capacitação dos profissionais e protocolos adotados na unidade do Morumbi no atendimento aos pacientes privados. A taxa de mortalidade na UTI do M’Boi Mirim foi menor que a média observada nos hospitais públicos, mas maior que a registrada na UTI do Einstein Morumbi, por exemplo. A diferença não estava na estrutura e nos recursos, mas no perfil dos pacientes: os do M’Boi Mirim chegavam com quadros mais graves, doenças crônicas não controladas, obesidade, desnutrição.

A falta de equidade também ajuda a responder à seguinte questão: por que a variante ômicron surgiu na África? Porque o continente tinha apenas 7% da população imunizada, e o vírus encontrou ali ambiente adequado para proliferar e produzir variantes. Idem para a delta, que apareceu em uma Manaus não vacinada.

Indicadores de expectativa de vida também escancaram as desigualdades no mundo e, como mostra o quadro abaixo, do cardiologista e pesquisador Eric Topol, fundador e diretor do Scripps Research Translational Institute, nem sempre maiores investimentos em cuidados de saúde se traduzem em maior longevidade (observe os EUA, um dos países onde mais se gasta com saúde).

Gráfico mostra que nem sempre investimento promove maior equidade em saúde.
Fonte: Eric Topol no Twitter

Segundo a Tábua Completa de Mortalidade do Brasil, do IBGE, a média da expectativa de vida de um indivíduo nascido em 2019 era de 76,6 anos (não há dados atualizados depois da pandemia). No entanto, um recorte por estado mostra extremos chocantes: 79,9 anos para Santa Catarina e 71,4 anos para o Maranhão – são mais de oito anos de diferença!

Na saúde, falta equidade em recursos, estruturas, conhecimento, informação, serviços, incorporação tecnológica, entre outros. Mas não há saúde sem saneamento, água tratada, condições alimentares adequadas, controle da poluição, mobilidade urbana adequada e áreas verdes etc. É por isso que, ao lado da qualidade da assistência, o IHI fomenta a promoção da saúde, o que abrange também prevenção de doenças e qualidade de vida. Neste período de campanha eleitoral, essas são algumas questões importantes que deveriam constar na agenda e nos planos daqueles que aspiram governar estados ou o país.

Profissionais e organizações precisam buscar equidade em saúde

Cabe a profissionais de saúde e organizações como o Einstein exercerem protagonismo, identificar iniquidades e contribuir para saná-las, seja com projetos e iniciativas próprias ou influenciando, com base em conhecimento e ciência, quem tem poder de decisão e investimento. Organizações privadas podem, sim, contribuir com distribuição mais equilibrada dos recursos, formação e capacitação de profissionais, programas de educação para a promoção da saúde, pesquisas e informações que ajudem a nortear políticas públicas e colaborações para apoiar o setor público.

Existem várias iniciativas nesse sentido que têm ajudado a marcar pontos positivos no placar da equidade. Cito algumas.

Uma é o Projeto de Tutoria em Transplantes de Órgãos Sólidos, desenvolvido no contexto do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS). Nesse projeto, o Einstein, que tem o maior programa de transplantes de órgãos sólidos do país, mais de 90% deles realizados pelo SUS, lidera a formação de mais de 70 profissionais de saúde, qualificando-os para a realização de transplantes de fígado, rins e pulmão em localidades de grande vazio assistencial de diferentes estados.

Além de aulas e atividades presenciais para acompanhar procedimentos de extração de órgãos e transplante, o trabalho inclui apoio gerencial e auxílio no monitoramento e avaliação dos processos, rotinas de serviços e apoio à gestão de recursos para a estruturação de centros transplantadores.

Com a qualificação desses profissionais e tutoria dos novos centros, pacientes dessas regiões passam a ter acesso a cuidados baseados em práticas de excelência, o que contribui para melhores desfechos e qualidade de vida dos indivíduos. Além disso, há uma descentralização do acesso a esses procedimentos, contribuindo para minimizar os custos relacionados a deslocamentos de pacientes e familiares para lugares mais distantes.

Já o Saúde em Nossas Mãos, outro projeto desenvolvido pelo Einstein por meio do Proadi-SUS, conseguiu, com ações de melhoria, capacitação e troca de experiências, reduzir em 55% o número de infecções relacionadas à assistência em pacientes internados em UTI de 116 hospitais públicos do país, salvando 2.687 vidas. Também foram evitadas mais de 7.600 infecções, que custariam ao SUS R$ 350 milhões. Esses dados são do triênio 2018-2020. Outros 204 hospitais públicos estão participando do projeto no triênio 2021-2023.

Promover a equidade às vezes exige boas ideias, e não iniciativas de grande fôlego. Rotineiramente, realizamos hackathons envolvendo alunos de graduações do Einstein e de outras escolas, criando um ecossistema de inovação em busca de soluções para a promoção da saúde. Uma das soluções é um aplicativo para mães da comunidade de Paraisópolis, na zona sul da capital paulista. O app promove a interação e a organização entre elas de modo que aquelas que de folga possam cuidar dos filhos das que estão trabalhando. É uma solução prática e econômica, que se desdobra em mais tranquilidade para as mães.

Se por um lado existem números e dados que apontam o abismo que ainda nos separa da equidade, alguns exemplos, como esses acima, mostram como podemos construir pontes. 

Equidade foi um dos temas centrais do 7º Fórum Latino-Americano de Qualidade e Segurança, realizado de 12 a 15 de setembro, em uma parceria entre Einstein e IHI.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui

Aviso: O JavaScript é necessário para esse conteúdo.